Um almoço no bairro Chino

Por Bárbara Fonseca

Estima-se que a comunidade chinesa na América Latina chegue a mais de 1,5 milhões de pessoas. No Panamá, eles representam 6% da população total, sendo que a primeira leva de imigrantes desembarcou no país em meados do século 19. Assim como muita gente de diversas outras partes do mundo, os asiáticos foram atraídos pelas oportunidades de trabalho na Panama Railroad Company, empresa responsável pela construção da linha ferroviária que ligaria, pela primeira vez, os oceanos Atlântico e Pacífico.

Parte desta história, hoje, é contada no bairro situado entre Casco Viejo e Mercado de Mariscos, dois lugares bastante famosos nos roteiros da capital. Contudo, ao contrário de seus vizinhos, a Chinatown panamenha está longe de ser um atrativo turístico convencional.  Pelo contrário.

Ao passarmos pelo portal que dá boas-vindas aos visitantes, a primeira coisa que ouvimos foi: “cuidado, zona roja (zona vermelha)”. Depois do aviso, logo passaram por nós dois policiais armados sobre uma motocicleta. Era nosso segundo dia na cidade e ainda não havíamos visto isso. Nos demos conta, então, de que estávamos numa área com maior índice de criminalidade.

O fato é que essa coisa de medo não me pega facilmente. O mesmo posso dizer da Ana. No Brasil, andamos de um lado para o outro, sentamos em bares “copo sujo”, conversamos com todo tipo de gente. Por aqui, também temos vivido desta forma: abertas ao novo. Assim, mesmo com os avisos e com a insegurança que pairava no ar, adentramos o bairro.

O que não sabíamos era que, ali, um presente nos aguardava. Já tinha ouvido falar do restaurante Kwang Chow no programa do Anthony Bourdain, meu ídolo, muso, inspiração. Não sabia, no entanto, se conseguiríamos ir até lá ou, ainda, se valeria a pena. E como não valeria? Tal qual uma mensagem da sorte guardada em um biscoito chinês, este lugar simples se mostrou uma caixa de boas surpresas.

Mais antigo restaurante chinês da Cidade do Panamá, o Kwang Chow tem uma faixada simples, que passa despercebida aos mais desavisados. Logo na entrada, algumas peculiaridades já saltam os olhos. Entre elas, um pequeno balcão, onde são assados, cortados, pesados e embalados pedaços de carne suína de diversas partes, inclusive o bucho. As peças ficam dependuradas em ganchos, que podem ser contemplados, através da vitrine, por quem está de fora.

Entre as muitas (muitas mesmo!) opções do menu, ficamos tão perdidas que não conseguimos fugir do básico: uma porção de arroz frito e outra de Chow ming (como é chamado o nosso yakisoba por aqui). Na primeira garfada, sem saber o que nos esperava, nos curvamos diante à cozinha do local. Que maravilha de tempero, de ponto de cozimento e de aroma!

Somados ao sabor da comida, ainda posso citar os bons preços e a fartura dos pratos. Só para se ter uma ideia, pedimos meia porção de cada item e, ainda assim, comeriam quatro pessoas com tranquilidade. Com as duas cocas-colas e a taxa, a conta fechou em 15,25 dólares. Nada mal.

Deixei o salão do Kwang Chow com algumas certezas. Uma é a de que não devemos deixar que uma precaução se transforme em paranoia. A outra é a de que transitar por diferentes espaços é um dos aspectos que fazem uma viagem valer a pena. Por fim, não restam dúvidas de que o Anthony Bourdain tem espaço cativo em meu coração.

É bom saber que:

– O Kwang Chow está localizado na Av. B. Caso não consiga encontrar, pergunte a qualquer pessoa onde fica o restaurante, pois creio que é o único no bairro.

– O local não aceita cartão.

– As meias porções são fartas e podem ser compartilhadas.

– Para chegar ao bairro, fomos à pé do Mercado de Mariscos (fica logo em frente). A estação de metrô Primeiro de Maio é a mais próxima. De lá, você pode ir andando ou, se quiser evitar o caminho (que parece ser um pouco inseguro), pode pagar uns 2 dólares de taxi e pedir que te deixem na porta.

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Se interessou pelo Panamá? Veja o que já publicamos sobre lá:

Estoy en Panama, mi amor

Bienvenido al passado

Os primeiros patacones a gente não se esquece

Donde Ivan e a cozinha afropanamenha

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A duquesa do arroz de coco

Caballito con leche em um bar azul

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Trabalho voluntário: a gente fez e conta como foi

3 comentários em “Um almoço no bairro Chino

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