Na cozinha de um hostel

Por Ana Paula de Oliveira

Se há um espaço que comprova a capacidade interativa do ato de cozinhar ele chama-se “cozinha de hostel”. Lugar de passagem, os hostels (ou albergues) viabilizam consideravelmente o orçamento de quem está viajando ao diminuírem dois dos custos que mais pesam no bolso: a própria hospedagem e a alimentação, justamente por oferecerem uma cozinha básica – pelo menos, a grande maioria.

Pequenas ou grandes, com pouquíssimos utensílios e exigindo boa dose de bom senso – como a máxima “sujou, limpa”, embora sempre haja aqueles que a ignorem – mais que comida, nelas há a oportunidade do encontro. Sou até capaz de afirmar que se conhece mais de uma pessoa numa cozinha de hostel do que nos bares e festinhas que alguns desses estabelecimentos promovem.

Já cozinhei em muitos lugares com estrutura precária, por puro prazer. Nunca vou esquecer da vez que eu e três grandes amigos, Bárbara, Rodrigo e Carlim, viajamos os mais de 800 km que separam Belo Horizonte (MG) e Caraívas (BA) em um Corsa azul, nosso saudoso “Chico Bento”. Espremidos, entre a bagagem dos quatro, que incluía barracas e mochilões, também havia uma farta dispensa. A travessia na balsa ficou marcada pelo monte de caixas e o tilintar das panelas, coisa de quem tem muita disposição. Inclusive, para preparar um delicioso risoto de camarão fresco, compartilhado na virada do ano (2007/2008?).

Bom, voltando ao presente, El Tunco, em El Salvador, foi a primeira cidade em que estive “de patroa”, depois de trabalhar em vários hostels ao longo da viagem. A diferença desta para as outras experiências que tive é clara: estava em outro país, sozinha e com pessoas que falam diferentes idiomas. Tinha japonês, italiano, estadunidense, francês, canadense, argentino, chileno, brasileiro… Alguns que por ali estavam por uma ou duas noites; outros por uma semana, 15 dias.

Em meio a essa Babel, uma cozinha para saciar a fome no preparo rápido de qualquer coisa mais barata que os cinco dólares cobrados nas ruas – era impressioante o que se conseguia preparar com alguns trocados e apenas duas panelas em médio estado! Mas, o mais impressionante era observar o processo de aproximação. Aos poucos, o ato de cortar uma cebola ou lavar a louça em silêncio, por não dominar o idioma usado no momento, foi se misturando a planos traduzidos. “Hoje vamos fazer um ceviche. Quer participar?”; “amanhã a gente podia comprar um pescado!”; “mais tarde vou ao mercado. Você precisa de algo?”.

De repente, cada um tinha nome e história, ainda que breve. E com um pouco mais de tempo, já estávamos ali, almoçando “em família”, em um domingo de carbonara (preparado pelos italianos) para assistir ao clássico Milan x Internazionale – que perdeu de 3, para a tristeza dos cozinheiros.

E assim a cozinha foi transformando meros desconhecidos em semiamigos e amigos; transformando pratos individuais em mesa posta, com cervejinha e violão. Alquimia pura.

PS: Dessa vez vou dever as receitas. Foram feitas na famosa técnica do “olho” – um punhado disso, um bocado daquilo 😉

O hostel em que fiquei é o Tunco Lodge, que tem ótima localização, na rua principal e próximo à praia.

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