A minha Cuba é assim

*Por Bárbara Fonseca

São 17h e um céu púrpura anuncia o fim de tarde. Turistas vão e vêm pelos becos e ruelas do Centro Histórico de Trinidad, a cidade colonial de Cuba, localizada na província de Sancti Spíritus, a 300 quilômetros de Havana. Estou à caminho de casa quando uma melodia melancólica e, ao mesmo tempo, com certas notas de esperança, detém minha atenção. Dou a volta. Dobro a esquina. De repente, tempo e espaço já não existem.

A ladeira de pedras seculares é palco para a apresentação informal de um eclético grupo de músicos. Eles interpretam a canção Hasta siempre comandante Che Guevaraobra de 1965 cuja letra foi inspirada na carta de despedida de Che ao povo cubano. Somos uma pequena e heterogênea plateia e estamos em silêncio. Alguns fecham os olhos, como se permitissem que a alma dançasse livre e de pés descalços.

O mais idoso entre os músicos denuncia, em seu timbre vacilante e saudosista, o papel de testemunha ocular de uma história que os anos não apagaram. “De tu querida presenciaaaaa, comandaaaante Che Guevara…” A música acaba. Palmas e um silêncio rapidamente  irrompidos por uma piada de um dos músicos a um turista distraído que passava por ali. Todos caem na risada. O show segue.

Cuba é assim. Basta caminhar pelas ruas de suas cidades – que seja em Havana, em Santiago ou  em Guantánamo – para vivenciar alguma situação que irá te tirar do lugar. Trata-se de um país do qual o viajante sai com mais dúvidas que certezas. Ali, as contradições do cotidiano te instigam e fazem com que o seu pensamento vá e volte, cada vez com uma pergunta diferente. Nada mais natural em um país cujo passado, forjado em sangue e glória, está tão vivo na memória quanto no dia a dia.

Cuba são as esquinas de Havana. Pontos de encontro para partidas de dominó e rum barato compartilhado em copos de iogurte. É o malandro bom de lábia, sempre de vigília em pontos de grande movimentação de turistas. São os jovens do malecón, da praça da Calle San Rafael com Galeano ou de outros tantos pontos de internet que já funcionam na capital. Diferente de seus pais e avós nesta idade, a juventude cubana conhece o que há para além do bloqueio. Usam redes sociais. E, obviamente, querem consumir.

Cuba é Fidel, Che e Camilo Cienfuegos. Mas é também Manuel Fuentes, o Manolo da Calle Concordia, Centro Habana, e outros tantos ex-combatentes que empurraram o Exército Rebelde rumo à vitória contra a ditadura de Fulgêncio Batista. São homens e mulheres que dão rosto à Revolução e que, ainda hoje, são seus maiores defensores.

Cuba é imprensa controlada pelo governo, mas é também TV de Miami que chega ilegal à maioria dos lares, com propaganda de símbolos do capitalismo yankee, como a loja Macy’s e o McDonald’s. São as casas particulares para aluguel e seus donos generosos. Não só alugam seus quartos, como também abrem um espaço em suas famílias para o convívio com o turista estrangeiro.

Cuba é o culto ao iorubá. É oferenda aos orixás na porta das casas. É a devoção à Santa Bárbara, correspondente católica de Xangô, o orixá guerreiro da religião africana. É o som do atabaque e os colares de contas coloridas que se destacam sobre as vestes brancas.

Cuba é café, é cigarro barato, é rum na caixinha. É arroz, feijão, banana e bife. É pizza e espaguete de trailer. É pão com tortilha, pão com presunto, pão com croquete, pão com goiabada. É caldo de cana. É, se você tiver sorte, porco caipira assado na brasa na Praia Maguana, em Baracoa, servido com banana da terra cozida e arroz “com gris”.

A maior ilha do Caribe é a gentileza e a solidariedade de sua gente. É a singeleza do cotidiano de seus rincões, onde moradores abrigam estrangeiros em sua casa e oferecem carona nas estradas, mesmo que, por lei, não estejam autorizados a tal generosidade.

Cuba são galerias de arte e livrarias. É conversa interessante que brota de maneira despretensiosa em uma fila do correio ou num fim de noite qualquer. São diálogos divertidos no trajeto do taxi compartilhado. É o riso debochado e escancarado. É uma maneira diferente de viver que te toca, que te transforma.

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Se você quiser saber mais de Cuba, veja o que já foi publicado aqui:

Cuba para mochileiros – Dicas básicas de quem viajou por dois meses na ilha

Rolling Stones em Cuba: um salve à diversidade

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