História de pescadora: conheça o trabalho da Cooperativa de Mulheres Nativas de Arraial do Cabo (RJ)

*Por Bárbara Fonseca

O melhor horário para pescar lula é quando cai a noite. É que, na escuridão, o bicho é atraído pela luz dos barcos, facilitando, assim, o trabalho dos pescadores. Aqui em Arraial do Cabo, cuja história está profundamente ligada à pescaria artesanal, os pontos luminosos começam a pipocar na Praia Grande já com o pôr do Sol.

Uma noite, a dona de casa Maria Helena de Oliveira e Silva aceitou o convite de uma amiga para acompanha-la na pesca do molusco. Não deu outra. Tomou gosto pela atividade e não só assumiu a nova profissão, como se juntou a outras 22 mulheres para formar a primeira cooperativa de pescadoras da cidade: a Cooperativa de Mulheres Nativas. “Fiquei encantada com aquilo. Nunca tinha me imaginado pescadora, mas aqui estou”, conta Maria Helena, que há 22 anos se mudou para Arraial.

Criado há cinco anos, o grupo tem como bandeira ocupar um espaço tradicionalmente masculino, além de lutar pela preservação da cultura pesqueira da cidade. A verdade é que, desde os primórdios da pesca em Arraial do Cabo, as mulheres já exerciam papel importante, como conta Zenilda Maria da Silva, presidente da cooperativa. “Antigamente, não havia geladeira e a forma de conservar os peixes era salgando-os. Quem fazia este trabalho eram as mulheres.” O peixe salgado, semelhante ao bacalhau, deu origem à receita da peixada com banana, um prato tradicional na cidade que, infelizmente, já se encontra em vias de extinção.

18955118_1799466163716737_7975932204135047853_o
A presidente da entidade, Zenilda Maria da Silva, mostra o peixe salgado, uma tradição gastronômica da cozinha cabista (Foto: Divulgação/ Facebook)

Oficina originou grupo

A cooperativa foi formada durante um curso de agricultura polivalente oferecido gratuitamente a mulheres da cidade. De início, o objetivo do grupo era trabalhar com o cultivo de mudas da restinga, um tipo de vegetação típica de áreas costeiras, reconhecida no país como Área de Preservação Permanente.  Em Arraial do Cabo, a restinga pode ser vista, principalmente, na Praia Grande, uma das maiores praias do Brasil, com 44 quilômetros de extensão.

A dificuldade em montar o viveiro de mudas acabou abrindo espaço para um novo projeto. “Todas as mulheres daqui têm uma relação com o mar. Mesmo as que não pescam, têm alguém da família na atividade. Isso faz parte da gente. Por isso resolvemos focar o trabalho da cooperativa no peixe”. Explica Zenilda, ela mesma filha e neta de pescadores da Praia Grande.

A cooperativa tem como principal frente a produção de derivados do pescado. Hambúrguer, nuggets, almôndega e quibe estão entre as iguarias, que são vendidas congeladas, em embalagens de 500 gramas. Caso haja demanda e peixe em abundância, as pescadoras também oferecem filé e lula já limpa e cortada.

O produto é vendido diretamente na sede do grupo, sob encomenda ou em eventos. Uma das metas das cooperadas é retomar o contrato com a prefeitura para fornecer suas iguarias aos alunos da rede municipal de ensino. “A gente teve que suspender o fornecimento devido à burocracia, mas nosso sonho é retomar. Todos ganham com isso. Não somente a gente, mas também as crianças, que irão consumir um produto saudável e de qualidade, feito com o que é daqui”, comenta Zelinda.

12696902_1531775460485810_4817672540948624153_o

19055738_1799473273716026_6205335594655745263_o
Iguarias são feitas de forma artesanal e valorizam o ingrediente local (Fotos: Divulgação/ Facebook)

Mobilização para obter recursos

Cada pacote dos produtos da cooperativa custa, em média, 15 reais. Há quem considere o preço elevado, mas vale destacar que esse valor mal cobre os custos do trabalho. Apenas para sair ao mar para pescar, o gasto da cooperativa é de, no mínimo, R$ 20 por cada pescadora. Isso porque o grupo não possui barco próprio e acaba tendo que pagar pela “carona” nas embarcações de outros pescadores. “Quando é época em que a pesca não está boa, compensa mais comprar o peixe no cais do que sair para pescar”, conta Zenilda.

Diante das dificuldades, para viabilizar o trabalho, a cooperativa aposta em parcerias e financiamentos obtidos por meio de editais públicos. É o caso do Plano de Compensação por Atividade Pesqueira (PCAP) da Petrobras, do qual o grupo já se beneficiou por mais de uma vez. “A gente não para. Estamos sempre em busca de projetos, pois seria impossível bancar todos os custos”, explica a presidente.

Atualmente, as cooperadas estão mobilizadas em conseguir recursos para a reforma da sede, localizada na Praia Grande. A casa azul e branca, a cujo aluguel sai do bolso das mulheres , é bem antiga e precisa passar por melhorias para que o trabalho possa expandir. Basta dizer que o grupo está com um moderno maquinário parado devido às limitações da parte elétrica do imóvel.

Entre vaias e xingamentos

Não é difícil de se imaginar o preconceito sofrido pelas pescadores ao decidirem adentrar um terreno onde homens são a maioria. “No começo era muito duro. Quando estávamos no mar, ouvíamos tudo quanto é tipo de insulto. Uns gritavam: “vocês não têm roupa para lavar em casa, não?’ Outros perguntavam se nossos maridos sabíamos que estávamos ali pescando. Mas a gente não abaixou a cabeça”, se recorda a pescadora Margareth da Silva Julião.

Alguns barqueiros chegaram a negar a presença das mulheres em seus barcos, causando confusão com os que aceitassem embarcá-las. Houve ocasião, ainda, de elas serem recebidas com vaias na praia e, até mesmo, de serem chamadas de “gaivotas” no cais. O nome é uma referência pejorativa às pessoas que cercam as redes dos pescadores à espera de ganhar peixe de graça, algo comum aqui em Arraial do Cabo. “A gente chegava no cais para comprar peixe e eles achavam que queríamos ganhar. Não queremos nada de graça. Apenas queremos trabalhar como todos”, desabafa Margareth.

Felizmente, essas histórias  já ficaram para trás. Após muita luta, as pescadoras conquistaram não só respeito, mas também representatividade na cidade. Hoje, a Cooperativa das Mulheres Nativas ocupa cadeiras em grupos importantes, como o Conselho de Pesca, que reúne 15 entidades da pesca da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo.  “Não queremos tomar lugar de ninguém. Pelo contrário, quanto mais unidos formos, melhor vão ser as condições para os pescadores da cidade”, explica Zenilda.

Para conhecer mais o trabalho das pescadoras, acesse a página do grupo no Facebook (clique aqui). Aproveite para entrar em contato e marcar uma visita à sede, na Praia Grande, e levar os produtos para casa.  O endereço é Rua Epitácio Pessoa, 14, casa 1 (rua que dá acesso à orla da praia).  Garanto que as histórias dessas mulheres vão fazer você conhecer Arraial do Cabo de um jeito diferente.

18952797_1799469967049690_4907409274942707714_n
Pesca noturna de lula é feita no costão, nas proximidades de um dos pontos turísticos mais visitados da cidade: Pontal do Atalaia e Ilha do Farol
12698318_1531775057152517_2152340016131447481_o
Grupo prepara degustação de seus produtos em evento na cidade. (Foto: Divulgação/ Facebook)

Se você gostou desta história, te convido a viajar pelo nosso blog e conhecer mais curiosidades de Arraial do Cabo (RJ) e de outros lugares do Brasil e do mundo. Você também pode me acompanhar no Instagram para ler dicas e causos: @barbara_possoprovar

Olha aí também o que já publiquei sobre Arraial do Cabo:

Praia da Graçainha: uma dica que vale ouro em Arraial do Cabo

Dois meses em Arraial do Cabo: nova vida no Caribe brasileiro

Anúncios

Um comentário em “História de pescadora: conheça o trabalho da Cooperativa de Mulheres Nativas de Arraial do Cabo (RJ)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s